24/01/12

Cristianismo: Universalidade vs. Localidade




Phillip Jenkins, em seu clássico A Próxima Cristandade aponta para uma das diferenças centrais entre o Islamismo e o Cristianismo: o primeiro sacraliza a cultura árabe (única versão oficial do Alcorão), e islamizar-se é arabizar-se; o segundo tem uma mensagem universal, um livro de destinação universal, mas que é traduzido para as várias línguas e se incorpora às várias culturas, em uma diversidade criativa de expressões. O Cristianismo tem uma dimensão de universalidade, por um lado vertical, temporal, histórico; e, por outro lado, uma dimensão horizontal, geográfica, das várias regiões e culturas onde é vivenciado. Assim, essa universalidade é complementada pela localidade. A questão é: quanto de herança histórica conhecemos, e temos como base de nossa construção hoje? Quanto do que acontece da multiforme graça de Deus nos vários continentes e países conhecemos e incorporamos? E qual a nossa relação com o contexto onde vivemos a fé, para com ele nos identificarmos para o santificarmos?

O Arcebispo Primaz da Província Anglicana de Jerusalém e Oriente Médio, e Bispo da Diocese do Cairo, Mouneer Anis, chamava a atenção, em conversa com um grupo no Congresso Lausanne III, na cidade do Cabo, África do Sul, no ano passado, para a importância das Igrejas Orientais, que estão ali há dois mil anos, segurando a barra sob vários perseguidores, e mesmo com as nossas diferenças, deveríamos conhecê-las e valorizá-las. Como os protestantes contam a história anterior à Reforma (e, até, posterior) por uma ótica Católico-Romana, confesso que eu era, por muito tempo, um analfabeto sobre as Igrejas Orientais, em sua diversidade (bizantinos, pré-calcedônios/jacobitas, nestorianos/assírios e uniatas). A questão da dimensão vertical da universalidade envolve o desconhecimento, a desvalorização ou a seletividade de suas fontes e episódios, a ação do Espírito Santo e a formação do “consenso dos fiéis”, duramente atingida pela heresia da “apostasia geral da Igreja”, disseminada nos setores radicais do protestantismo.

Quanto ao aspecto horizontal, ou geográfico, a realidade é que todos os continentes onde hoje o Cristianismo se espalha conhece o que pensam e fazem os seus irmãos dos países centrais, que os informa e exporta, mas nada sabe uns dos outros. Todos são sistematicamente ocidentalizados, mas todos são privados de crescer pela contribuição de todos. Em uma tarde livre do Congresso de Pattaya, Tailândia (Movimento de Lausanne + Aliança Evangélica) promovemos um diálogo entre os pensadores ali presentes oriundos da América Latina (FTL), da África e da Ásia. Foi um momento triste pelo quanto de desconhecimento tínhamos uns dos outros, um momento de surpresa pelo que cada grupo descobria estar acontecendo nos outros continentes, que nos enriqueceu e desafiou. Ficou a consciência de que o controle da informação que ocorre na esfera secular, se reproduz na esfera religiosa. Um dos dirigentes do Congresso Lausanne III foi dolorosamente sincero: o Cristianismo é uma fé hoje universal, mas, por muito tempo ainda o financiamento e a liderança ficarão no Ocidente.

Quantos eventos internacionais evangélicos não estive presente ao longo das décadas, e cujo único papel dos representantes do então chamado Terceiro Mundo (agora é Mundo dos Dois Terços) era apenas emprestar o nome e sair na fotografia oficial, para demonstrar que o evento fora “internacional”, quando o nosso papel tinha sido de meros figurantes, de índios em filme de cowboy...

Ora, se a tendência humana já é, naturalmente, o etnocentrismo (olhar a história a partir do seu tempo e olhar o mundo a partir do seu lugar), o controle do poder religioso e da informação religiosa nos torna ilustres desconhecidos uns dos outros, seja sobre o que aconteceu no passado, seja sobre o que acontece no presente, e sobre as características de cada ramo ou movimento da Igreja.

Quanto à questão da localidade (a fé em contexto), quem está imerso na importação cultural desordenada não tem tempo nem condições de aculturar/inculturar, maiormente quando se adiciona o preconceito e a desvalorização da sua cultura, ou a demonização do patrimônio cultural material e imaterial do seu povo. Isso resulta em um estranhamento/estrangeiramento no próprio país.

No caso do Brasil, quase todas as pessoas que se destacaram nas áreas da literatura e das artes são “desviados do Evangelho”, ou seja, você precisa “se desviar” para escrever um romance de nível ou ser respeitado nas artes (musical, teatral, plástica, etc.). Até porque, além do engessamento pessoal, do recalque das vozes do corpo, da rígida normatização de comportamentos, os protestantes nacionais são instruídos em uma concepção (semelhante a dos marxistas) de uma “arte engajada”, com cada romance ou cada pintura, escultura, ou peça teatral somente legitimada se for em forma de um sermão, com finalidade direta proselitista, ausente a percepção da presença da imago dei em toda a criação, do valor da natureza e dos sentimentos, e o reconhecimento realista da ambiguidade da pessoa humana.

O resultado é uma sensação de perda, de limitação, de impossibilidade de crescer e de obedecer ao mandato cultural, pelo conhecimento amplo do legado dos nossos maiores, pelo conhecimento amplo da multifacetada expressão da fé e da Igreja, pela participação fecunda como sal e luz da cultura que amamos, e do país e região onde a Providência nos fez nascer.

Sei que não é isso o que lemos no que compramos nas nossas “livrarias evangélicas”, nem ouvimos nos nossos congressos, nem em nossos shows Gospel. Mas, pregar no deserto ou discursar aos animais faz parte da História da Igreja. Um discurso a mais...

Paripueira (AL), 10 de janeiro de 2012,
Anno Domini.

+Dom Robinson Cavalcanti, ose
Bispo Diocesano

http://www.dar.org.br

20/01/12

Revolução cultural


Ed René Kivitz

Acabo de ouvir Zigmunt Bauman por 30 minutos, em entrevista concedida a Sílio Boccanera, para o Programa Milêmio, da GloboNews.

Dos interessantes comentários a respeito do que Bauman chama de “revolução cultural”, tive alguns insights. Na verdade, dois. E ambos parafraseando o “penso, logo existo” de Descartes. Vivemos dias de “devo, logo existo”. Bauman disse que na sociedade capitalista quem não consome, não existe. Deixamos para trás a caderneta de poupança: “consiga o dinheiro e compre o que que quiser”, e migramos para o cartão de crédito: “compre o que quiser e depois consiga o dinheiro para pagar”. O resultado dessa mudança de paradigma de consumo é a dívida. Mudou o ditado. Antes se dizia “quem não deve, não teme”, hoje se diz “quem não deve, não existe”, pois quem não deve não interessa aos donos do crédito. E quem não interessa aos donos do crédito está alijado da sociedade.

Além de “devo, logo existo”, vivemos dias de “sou visto, logo existo”. Essa é a versão imposta pela tirania das redes sociais. Quem não tem twitter, blog, facebook está fora do horizonte de convívio social, cada vez mais virtual. A vida on-line substituiu a vida off-line. Vai crescendo o número de pessoas que deixam de existir assim que fecham seus computadores e desligam seus smartphones. Aliás, o mundo vai se enchendo de gente que jamais fecha o computador ou desliga o smartphone. Apavoradas com a possibilidades de não serem vistas, isto é, não receber comentários e recados no facebook, e não ver sua coluna de mentions do twitter crescer, as pessoas temem deixar de existir.

E Bauman conclui como somente os sábios: “não tenho capacidade nem conhecimento para avaliar o que isso significa nem como vai ser o futuro”. A entrevista se encerra com Bauman encolhendo os ombros e virando os beiços como quem diz “e agora, José?”.

Fonte: Blog Ed René Kivitz
http://edrenekivitz.com/blog/

14/01/12

Política higienista? Não, dever constitucional SIM

A ação do governo na cracolândia é adequada?


PAULO CAPPELLETTI, JULIANO MELO E MARTINIANO BORGES

Quando o governo procrastina, o resultado é quase sempre desastroso. O descalabro da cracolândia é um desses casos.

Há 15 anos, algumas ruas do centro velho de São Paulo foram tomadas por uma nova droga, o crack. Durante o dia, os usuários desapareciam. Escondiam-se em canteiros de avenidas, em hotéis baratos e em organizações não governamentais (na maioria dos casos, religiosas).

À noite, quando as lojas se fechavam, como no clipe "Thriller", de Michael Jackson, maltrapilhos e moribundos "surgiam". Hordas de "batmans", enrolados em cobertores, atacavam transeuntes e moradores para poder levar algo que permitisse comprar pedras de crack.

Autoridades? Sim, a Polícia Militar fazia rondas. Às vezes, fazia abordagens ou um estardalhaço com algumas dezenas de homens.

A inovação da cracolândia, na alameda Dino Bueno e na rua Helvétia, foi o aperfeiçoamento da desgraça. A três quadras de um batalhão da polícia, viciados e traficantes encontraram o ambiente perfeito para passarem o dia todo.

Em pouco tempo, uma linha de ônibus teve o seu trajeto alterado, e o lugar foi abandonado, tornando-se um ponto de tráfico e uso de crack. Estima-se que 2.000 pessoas tornaram aquela latrina a céu aberto o centro dos seus universos. Imagens de televisão não transmitem a fedentina repugnante.

Durante anos, desleixadamente (e criminosamente, por que não dizer?), nossos governantes permitiram que a pedra fosse negociada livremente. Durante os anos 1990, a "inteligência policial" ignorou denúncias, não fez quase nada. Muita vezes, foi conivente e corrupta.

Hoje, apesar de carente em inteligência e em investigação -esta nova retomada se fez com poucas prisões e nenhum mandado de busca-, a ação da polícia é a esperança de uma nova postura do Estado.

Culpam a ação policial por prejudicar o trabalho das ONGs e dos agentes de saúde. Eles estariam criando vínculos com possíveis adeptos do tratamento. É discutível.

Os agentes de saúde são estagiários e estudantes de diversos cursos universitários, contratados não pela Prefeitura, mas por ONGs terceirizadas. Em geral, são pessoas sem vocação, preparo ou experiência. Vestidos com coletes azuis e com pranchetinhas nas mãos, andam burocraticamente pelas ruas vendendo a mentira de que estão criando vínculos com os dependentes.

Quais vínculos são esses? Eles esperam substituir os pais, os irmãos e os amigos, há muito perdidos pelos "nóias"? Vão acompanhá-los durante todo o tratamento? E depois do tratamento, serão seus melhores amigos? Não. Sobre esses vínculos, muito pouco pode se esperar.

E agora? Vamos reprovar a ação da polícia? Não! A cracolândia é um misto de problemas. E um deles é de segurança pública.

Óbvio que excessos cometidos por autoridades não devem ser tolerados. Mas isso não tira a obrigação do Estado de estar lá, recuperando a região do domínio do crack e reinstaurando a ordem. O que a Polícia Militar está fazendo agora é apenas o que deveria ter feito há 15 anos -se tivesse feito, hoje não haveria cracolândia com endereço fixo. A operação deve continuar. Política higienista? Não. Dever constitucional.

Óbvio que a polícia não resolverá a dependência química, mas poderá propiciar um ambiente seguro para que as outras formas de ajuda possam chegar a quem necessita. A polícia abre caminho para que os usuários tenham o acesso à saúde, às igrejas, às ONGs e aos familiares.

A internação compulsória também deve ser exercida. Durante um resgate, os paramédicos não perguntam se o acidentado aceita ser encaminhado ao hospital. O dependente precisa dessa ajuda. Talvez ele saia da internação e imediatamente volte para o crack, mas ele tem o direito de passar alguns dias limpo para que retome seu poder de decisão.

PAULO CAPPELLETTI, 51, teólogo, é diretor da Missão SAL (Salvação, Amor e Libertação). Atua no tratamento de dependentes há 15 anos. JULIANO MELO, 33, bacharel em letras, e MARTINIANO BORGES, 30, sociólogo, são diretores do IBTE - Instituto Brasileiro de Transformação pela Educação.

Fonte: Folha de São Paulo

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/19890-a-acao-do-governo-na-cracolandia-e-adequada.shtml

Crack por Cristo



Eliane Trindade e Apu Gomes, na Folha de S.Paulo [via Folha.com]

Desgarrados da multidão maltrapilha da cracolândia, dez usuários de crack se alinham diariamente em colchões rasgados e em camas de papelão na calçada do número 509 da alameda Barão de Piracicaba, na região central de São Paulo.

Eles buscam abrigo na porta da Cristolândia, misto de igreja e centro comunitário, que funciona ali há quase dois anos. São “refugiados” de uma cracolândia dispersa pela Polícia Militar.

“Estou correndo do cachimbo [de crack] e dos homens. Aqui a polícia deixa a gente em paz”, diz Daiane Soares, 26, sobre a operação policial deflagrada em 3 de janeiro.

Ela espera há seis dias vaga em uma clínica que aceite casais para se tratar junto com o namorado, Wesley, 20.

Com a presença ostensiva da PM na região, a missão Batista passou a funcionar em esquema de plantão, com suas portas abertas 24 horas para a galera acuada do crack.

Com a proposta de fazer os usuários de drogas trocarem o “crack por Cristo”, o projeto encaminhou nos últimos 22 meses cerca de mil usuários para internação e centros de formação evangélica.

Remédios são evitados na fase de desintoxicação. “Só usamos tratamento medicamentoso em casos extremos. Para além da ciência, temos a fé. É o nosso diferencial”, afirma o pastor Paulo Eduardo Vieira, 47, da 1ª Igreja Batista de São Paulo, à qual a Cristolândia é vinculada.

Para a pesquisadora Zila Sanches, do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas, não usar medicamento na desintoxicação dificulta o tratamento. “Sem remédio nos primeiros 15 dias de abstinência, o processo é mais doloroso física e emocionalmente”, diz.

Mas ela também vê pontos positivos. “Funciona para aqueles que já tenham uma crença e que buscam por conta própria a ajuda da igreja.”

INTERNAÇÕES

Nas duas últimas semanas, o número de internações, via Cristolândia, bateu o recorde de 90. “Fazíamos uma média de 40 por mês. Já chegamos ao dobro disso em dez dias e vamos abrir novas 200 vagas”, contabiliza o pastor Humberto Machado, 53, coordenador da missão.

Na terça-feira, a Cristolândia passou no teste como refúgio. Uma ronda da PM tentou retirar da calçada uma dezena de usuários de drogas.

“Aqui é solo sagrado”, esbravejou o padre Júlio Lancellotti, coordenador da Pastoral de Rua, que fazia uma de suas visitas ao projeto.

A PM recuou. Na quarta, um oficial foi ao local. “O coronel viu que não somos contra a polícia”, diz o missionário Gerson Machado.

A Cristolândia é mantida por doações das igrejas Batistas. Os gastos são de R$ 70 mil por mês. Para atrair usuários de crack para os cultos matutinos, oferecem refeições, banho e roupa limpa.

O alimento espiritual vem primeiro. “Deus não criou você para ser um verme na cracolândia”, prega o pastor Humberto, 53. Ex-usuário de cocaína, ele usa sua experiência para provar o êxito do tratamento baseado na fé.

“Cheirava cocaína dia e noite, comia lixo, fui preso e humilhado. Só via trevas”, relata à plateia na cracolândia.

A prefeitura diz que oferece abrigo e tratamento, mas em diferentes etapas. A ação existe desde 2009.

Em dois anos, a prefeitura diz ter feito 12 mil atendimentos, sendo 3.000 internações. Segundo a prefeitura, quem não quer tratamento também pode receber abrigo.

Fonte: Pavablog

09/01/12

Marcos Eberlin - Design Inteligente

Cristo na cidade


O Senhor estará na cidade na medida em que seus habitantes sinalizem pelo testemunho a busca ou a presença de Deus.

Por Carlos Queiroz

A vida urbana é uma construção humana em busca da sobrevivência social, política e econômica. A formação das cidades é a experiência resultante dessa busca de sobrevivência atrativa. Nas últimas décadas, a formação de grandes cidades é um processo acelerado e irreversível em todo o mundo. São milhões de pessoas vivendo em áreas relativamente reduzidas, uma forma de convivência repleta de complexidade. De um lado, o encanto da modernidade: arranha-céus com tecnologia inteligente, meios de transporte de alta velocidade, gigantescos shopping-centers, serviços de todo tipo. De outro lado, o espaço urbano trouxe consigo o acúmulo de lixo, os engarrafamentos, a violência, o abismo entre ricos e pobres. Novos atores sociais surgiram com a urbanização, como o traficante, o flanelinha, o trombadinha.

O mundo urbano, formado como resultado da industrialização e do incremento das tecnologias, gerou uma forma de convivência individualista: cada ser humano busca uma maneira de existir sem que os outros lhe perturbem. A automatização limita os diálogos; as grades separam vizinhos; a janela do carro permanece fechada. Nas cidades, as relações humanas são fundamentadas na produtividade, no lucro, na competitividade. A sociedade urbana divide-se entre os que possuem poder de compra e os outros, que vivem à margem do sistema econômico e que a dinâmica do processo encarregou-se de empurrar para as periferias.

O crescimento das cidades levou ao fenômeno da coletivização. Já não há espaço para individualidades – o que existe é a massa, a galera. Acontece que, em qualquer lugar, as pessoas sempre buscarão uma experiência religiosa. Onde estiver um ser humano, ali há de acontecer um “evento” religioso. Faz parte da natureza do homem a sensação do vazio que necessita ser preenchido pelo sagrado. Na maioria dos casos, essa relação é apenas uma projeção subjetiva das realidades cotidianas – mas, no contexto da polis, ela assume novos matizes. Quando utiliza linguagens, símbolos e imagens, a religiosidade urbana comunica o individualismo, a concorrência, a violência, até. As divindades veneradas são tão egoístas como seus adoradores. De alguma forma, diante da linguagem e da expressão religiosa, será possível se identificar o quanto humano ou desumano é o povo de uma cidade.

No Apocalipse, João falou de cidades. Elas são descritas tendo como arquétipo as realidades espirituais conhecidas pelo narrador do texto. Babilônia e Nova Jerusalém apresentam diferentes manifestações de Deus – a destruição de um lado, o amor de outro. Babilônia venera o Dragão, um poder maligno que ameaça o povo de Deus. Em Nova Jerusalém, contudo, reina o Cordeiro. Na escatologia do Apocalipse, é possível perceber semelhanças sinais de Babilônia em São Paulo, Nova Iorque, Mumbai, Cairo, Londres. A Babilônia no mundo urbano pode ser a influência de um poder fora da geografia da comunidade que sofre. Uma influência grande, aparentemente irresistível. Pode ser o mercado, a alta tecnologia, o materialismo, a idolatria, a degradação ambiental, a exploração. Como a Besta, eles querem deixar suas marcas nos cidadãos.

Babilônia e Nova Jerusalém são realidades urbanas enfrentadas pela humanidade. A Nova Jerusalém é uma sociedade vinda da parte de Deus, mas sob a ameaça constante do poder político e econômico da Babilônia. Assim, identificar as “Babilônias” e as divindades de cada época, mantendo a esperança por novas realidades e lutando contra as contradições desumanas na cidade, são o sonho e o projeto dos seguidores de Jesus Cristo. O fenômeno da urbanização, com todas as suas complexidades, é uma oportunidade de serviço oferecida aos cristãos. Erigir a Nova Jerusalém é o sonho possível da presença de Deus no meio urbano. Nesta cidade, não há templos como os que vemos em nossas ruas e avenidas, “pois seu templo é o Senhor”, conforme João. É essa aspiração pela presença de Deus que está em evidência.

O Senhor estará na cidade na medida em que seus habitantes sinalizem pelo testemunho a busca ou a presença de Deus. O Verbo se fez carne e habitou entre nós; então, há espaço para Jesus nas cidades. Quando Deus se faz presente, manifestam-se os sinais do seu Reino: amor e justiça, graça e paz, alegria e solidariedade. Que esses sinais sejam mais evidentes em nossa realidade urbana.

Fonte: Cristianismo Hoje

05/01/12

Satanizaram o Natal


Bráulia Ribeiro



De como os evangélicos vão ficando cada vez menos humanos e trabalham sem saber para a desevangelização do Brasil


Satanizaram o Natal. Me parece até surreal quando vou a igrejas, e a sites evangélicos, e não se faz nem uma referência ao Natal sequer, nem se tem um culto de celebração dia 24, ou 25 parte da tradição cristã há tantos séculos. Às vezes não acredito, me belisco, penso, não, esta doença vai passar, mas que nada, se alastra mais e mais. Mesmo os cristãos que contra a corrente mandam seus cartõezinhos, se sentem no dever de nos exortar contra o comercialismo, contra os presentes, no meio de votos tímidos de felicidade e feliz ano novo. Quando encontro um irmão na rua e desavisadamente comprimento com um animado: “Feliz Natal!” Eles me olham como se estivesse falando uma heresia, ou num ar condescendente explicam que já não estão mais neste mundo e que Cristo nasce todo dia….

Tradições religiosas como o Natal tem o papel de reforçar valores sociais comuns. Enquanto no carnaval e no reveillon, a tradição é subverter valores, se esbaldar, praticar o impraticável durante o resto do ano, por isto são chamados por Roberto Damatta, antropólogo brasileiro de “ritos de inversão”, na festa do Natal principalmente os trabalha para reforçar os valores positivos. Natal é a festa da família, de comer juntos um peru, de decorar a árvore ou o presépio, de cantar hinos, de se presentear os amigos, os familiares, de dar gorjetas maiores, de pensar nos que estão distantes. Nesta época Holywood lança inúmeros filmes sobre pais e filhos, pais desnaturados com valores errados, que de alguma forma perderam a noção do que é importante, e nesta época se encontram com algo que “os converte” novamente à família. Nesta época até os sem religião ficam com os olhos marejados diante de um presépio bem feito, ou dos garotos cantando canções natalinas nas janelas do HSBC em Curitiba.

Boicotar as festas cristãs mais importantes como o Natal e a Páscoa é boicotar-se a si mesmo, perder uma boa oportunidade para falar de Cristo, abraçar pessoas, espalhar fraternidade e carinho numa época em que as pessoas se voltam automaticamente umas para as outras. Nossa vida em sociedade é feita de ritos, tradições e heranças simbólicas. Estes crentes anti-natal, dominados por um zelo místico e sem respaldo bíblico querem renegar todas suas tradições culturais, até as mais inofensivas.

Ritos de reforço são tão necessários quanto ritos de inversão. Não é porque nos convertemos que deixamos de ter cultura. Continuamos a ter necessidade de reforçar socialmente o que acreditamos. Ironicamente a falta do Natal, junto com a demonização de certos símbolos cristãos como a cruz, continuou tendo este mesmo fim social. Se tornaram os “desritos” que reforçam a separação evangélica do mundo. Mas porquê se tornaram necessários artifícios sociais como estes, se a nossa cultura cristã quando puramente bíblica já nos “marca” automaticamente com uma diferença moral, já nos banha como o hissopo da conversão do caráter que tem não tem paralelo a nenhuma outra experiência humana? A mudança de caráter, a conversão de valores é segundo Jesus (Jo17) e deveria continuar sendo a maior marca que torna os cristãos conhecidos não importa a cultura, os ritos que praticam ou deixam de praticar, a freqüência ou não na igreja.

Infelizmente o sincretismo moral tomou conta da igreja. Pregamos nos nossos púlpitos do mesmo jeito que se prega nas palestras de auto-ajuda nos auditórios de hotéis. Você pode, você merece, você tem direito. Estamos debaixo da soberania do eu, da tirania da felicidade egoísta. Se distribuem riquezas, beleza, orgasmos múltiplos, alegrias festivas nos púlpitos, numa supercialidade que nos faz duvidar que Jesus morreu na cruz, mas deve ter acendido aos céus numa almofada cor de rosa.

O Natal vai sim se tornar uma festa cada vez mais pagã. Vai se falar mais em trenós, duendes e renas, neve (mais uma estupidez nossa, europeus dos trópicos) e cada vez menos no nascimento de Jesus, porquê nós não vamos estar presentes no cenário cultural geral para salgar nada. Vamos ignorar a importância da história mais recente, super-valorizando uma origem pagã datada de milhares de anos atrás.

Nosso cristianismo vai se tornar apenas uma experiência mística vazia, ao invés de uma realização do fato mais importante da história da humanidade, o nascimento do criador em forma de homem. Fato constado historicamente, documentado, materialmente fisicamente e culturalmente real num dia específico da história humana. Um dia ele nasceu, não sei se em setembro, novembro ou dezembro, a acuracidade do mês e do dia não importa tanto quanto o evento. Um bebê humano em toda sua fragilidade, chorou ao ser parido por uma mãe humana. Mas nele havia o DNA divino. Nele estava contida toda a plenitude da divindade, numa maneira que nossa mente limitada não alcança entender. Ele era Deus mas não teve por usurpação o ser igual a Deus, mas antes tomou a forma de servo e seguiu até a morte na cruz.

Nascer, viver, morrer e ressucitar de uma maneira divina, no entanto humana foi sua mensagem principal. Eu os amo, amo a ponto de me encarnar, de me limitar à sua humanidade, de me tornar criatura, eu o Criador, e assim ensinar-lhes como viver. E assim marcar a história humana com um AC DC. E assim me tornar o autor da maior transformação que a humanidade já sofreu. Esta história que se repete hoje nas nossas vidas, é verdade que ele “nasce” dentro de nós quando nos convertemos, teve um início.
Só me resta agora lamentar nossa ignorância. Ignorância religiosa, sociológica, cultural. Desprezamos símbolos importantes numa fase em que deveríamos reforçar-lhes o valor. Iludidos por ensinos enganadores, superficiais, que desconsideram tanto a história deixamos de relembrar a humanidade do que ela já sabia, mas está esquecendo.

Só me resta lamentar este evangelicalismo armadilha no qual fomos presos. Não sabemos ser cristãos mais. Tornamos-nos semi-bruxos exotéricos, neo-cristãos-medievais próximos das experiências místicas, mas distantes das verdades históricas profundas. Somos capazes de pregar uma felicidade terrena sem limites, mas incapazes dos sacrifícios morais, incapazes da verdadeira santidade, somos capazes de discriminarmo-nos uns aos outros com base em sutis discrepâncias doutrinárias, no entanto incapazes de amar.


Fonte: Genizah
www.genizahvirtual.com

19/12/11

bonhoeffer e o liberalismo na américa

Sandro Baggio

Quando Bonhoeffer foi passar um ano entre 1930-1931 no Union Theological Seminary em Nova Iorque, deparou-se com o liberalismo teológico em franca ascenção na América do Norte. Bonhoeffer havia sido aluno do teólogo liberal Adolf Von Harnack, mas escolhera seguir um caminho diferente. Seus comentários a respeito dos estudantes do Union são notórios:

Não há teologia aqui [...]. Falam pelos cotovelos sem o menor fundamento e sem indício de qualquer critério. Os estudantes – com idade entre 25 a trinta anos – não têm qualquer noção a respeito do que é tratado pela dogmática. Não estão familiarizados com as questões básicas. Intoxicaram-se com frases liberais e humanistas, ridicularizam os fundamentalistas e, no entanto, ainda não alcançaram sequer o nível deles.
… a falta de seriedade com que os alunos falam de Deus e do mundo é, para dizer o mínimo, bastante surpreendente [...]. Fora daqui, é difícil imaginar o tamanho da inocência de pessoas à beira do ministério, ou de algumas já dentro dele, ao fazer perguntas no seminário para teologia prática – por exemplo, se alguém deve realmente pregar sobre Cristo…
O ambiente teológico do Union Theological Seminary acelera o processo de secularização do Cristianismo na América. Sua crítica se direciona contra os fundamentalistas e, de certa forma, também contra os humanistas radicais em Chicago; algo saudável e necessário. Mas não há uma base sólida sobre a qual se possa reconstruir após a demolição. Ela será carregada com o colapso geral. Um seminário onde pode ocorrer de um grande número de estudantes rir em voz alta durante a leitura pública de um trecho de De servo arbitrio, de Lutero, sobre o pecado e o perdão, porque soa cômico para eles, esqueceu por completo o que teologia cristã, por sua própria natureza, defende.

As igrejas em Nova Iorque também sofriam a influência do liberalismo:

A situação não é diferente na igreja. O sermão tem sido reduzido a comentários entre parênteses da igreja a notícias do jornal. Durante todo o tempo aqui, ouvi somente um sermão no qual era possível escutar algo como uma proclamação genuína, e que foi transmitido por um negro (na verdade, tenho descoberto cada vez mais um grande poder religioso e originalidade nos negros). Uma questão a atrair minha atenção em vista de todos esses fatos é saber se é realmente possível falar sobre o cristianismo aqui [...]. Não faz sentido esperar frutos de um lugar onde a Palavra não tem sido pregada. Mas o que será então do cristianismo por si só?
Em Nova York, pregam a respeito de quase tudo; há uma única coisa não anunciada, ou anunciada tão raramente que eu ainda não fui capaz de ouvir: o evangelho de Jesus Cristo, a cruz, o pecado e o perdão, a morte e a vida.
O que então substitui o lugar da mensagem cristã? Um idealismo ético e social a cargo de uma fé no progresso que – sabe-se lá como – reclama o direito de chamar a si mesmo de “cristão”. E, no lugar da igreja como congregação dos crentes em Cristo, há a igreja no papel de empresa social.

A ler estas palavras, não consigo deixar de ver uma semelhança com o rumo em que muitas instituições teológicas, ministros e igrejas estão seguindo no Brasil. Parece que ainda não aprendemos a lição da história e precisamos repetir novamente para entender que o liberalismo teológico é um caminho de morte espiritual.


As citações acima foram extraídas da excelente biografia Bonhoeffer: Pastor, Mártir, Profeta, Espião de Eric Metaxas. Bestseller do NY Times e ganhador do prêmio Book of the Year 2011, Bonhoeffer foi publicado em português pela Editora Mundo Cristão.

Fonte: http://www.sandrobaggio.com/

09/12/11

Deputado homenageia Ariovaldo Ramos na Alesp


O deputado estadual Carlos Bezerra Jr. concedeu o prêmio Santo Dias ao pastor, teólogo e ativista dos direitos humanos Ariovaldo Ramos. É a primeira vez em 15 anos que a homenagem, entregue dia 5, é oferecida a um evangélico. A denominação da honraria remete Santo Dias da Silva, um dos principais nomes da luta operária contra a desigualdade, morto pela polícia militar em 1979, no auge do regime ditatorial.

“Como cristãos, acreditamos que, sem obras, de nada vale nossa fé. E o Ariovaldo é um exemplo de como a prática da fé em que cremos pode levar vida a um tanto de pessoas. Assim como Dias, ele é também um operário. Não trabalhou em industrias, construções ou fábricas, mas, dia a dia, empenha-se incansavelmente em levar uma mensagem de esperança e liberdade aos excluídos”, afirmou Bezerra Jr., em seu discurso na solenidade.

Ariovaldo Ramos foi presidente da Aliança Evangélica Brasileira (AEB) e é embaixador na maior ONG cristã do mundo, a Visão Mundial. As propostas do grupo que liderou no Conselho de Segurança Alimentar da presidencia da República estão entre as cinco mais efetivas para atender os objetivos de erradicação da fome, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Por isso, o pastor foi convocado pelo Fundo de Segurança para Alimentação e Agricultura das Nações Unidas para conferencia sobre adequação de políticas públicas para o direito humano a alimentação adequada, em Roma, Itália.

Leia, abaixo, a biografia completa do homenageado e veja, à esquerda, o vídeo produzido para celebrar a premiação.

Ariovaldo Ramos dos Santos nasceu em São Paulo, em 1º de Janeiro de 1956. Filho de Alcides Ramos dos Santos, operário, e Raimunda Maria dos Santos, costureira. De família simples, ainda criança se mudou para zona norte de São Paulo e, mais tarde, para Guarulhos, na grande São Paulo, onde passou a adolescência. De sua história pessoal traz compromisso com os pobres. Da sua luta por justiça e igualdade faz sua bandeira e expressão de fé.

Pastor de formação e estudioso de filosofia está envolvido no ministério religioso desde 1974. Começou como leigo na Igreja Metodista Livre em Jardim Paraventi, em Guarulhos, envolvido na área de ensino e exposição da Bíblia. Em 1984, foi trabalhar na VINDE - Visão Nacional de Evangelização, uma ONG fundada pelo conhecido pastor Caio Fábio D´Araújo Filho, no Rio de Janeiro. É dessa vivencia que se torna um dos principais teólogos brasileiros da Missão Integral, uma teologia Latino Americana que oferece uma lente através da qual se lê as Escrituras Sagradas em busca de referenciais para a presença do cristão no mundo. Nas palavras do próprio Ariovaldo Ramos “a missão da igreja é promover salvação e também a dignidade e justiça, alterando a realidade social”.

Em 1991, de volta a São Paulo, Ariovaldo se envolveu no ministério JEAME -Jesus Ama o Menor, sendo mais tarde eleito presidente dessa entidade, que trabalha com crianças e adolescentes em situação de rua, especificamente as que se drogavam e praticavam pequenos delitos na Praça da Sé. O trabalho consistia em restabelecer o vinculo das crianças com suas famílias, através de atendimento integral. Do JEAME passou a apoiar também a Missão Ágape, do qual também virou presidente. Essa missão atende crianças em situação de vulnerabilidade social e que aguardam por adoção sob custódia do estado.

Em 1993, foi o principal coordenador da “Ação Cidadania contra a Fome, a Miséria e Pela Vida”, idealizada por Herbert de Souza, o Betinho, na cidade de São Paulo. Sendo o primeiro evangélico a ocupar a coordenação, envolveu dezenas de igrejas na campanha contra a fome, motivando-as a arrecadar e distribuir alimentos para instituições cadastradas. De volta ao Rio de Janeiro, em 1996, retorna a trabalhar na VINDE, num projeto chamado Fábrica de Esperança, em Acari, subúrbio da cidade.
A participação de Ariovaldo Ramos também é presente após a chacina de Vigário Geral, onde 21 pessoas da comunidade foram mortas por Policiais Militares, participando ativamente na construção da “Casa da Paz”. A Casa que se tornou “da Paz” pertencia à família de evangélicos mortos na chacina: oito pessoas assassinadas na frente de cinco crianças.

Mais uma vez de volta a São Paulo, passa a atuar na SEPAL (Servindo a Pastores e Lideres), onde intensifica o ensino da Missão Integral da Igreja e desafia lideres evangélicos e pastores a servirem os pobres, não somente com a pregação do Evangelho, mas lutando contra outros sinais de morte que existem na miséria e desigualdade social.

Em 2002, é eleito presidente da ONG Visão Mundial no Brasil; por seu envolvimento e militância nas causas sociais e pelo reconhecimento de sua liderança na Igreja evangélica Brasileira, atualmente é embaixador dessa que é a maior ONG cristã do mundo. A Visão Mundial é uma organização não governamental humanitária cristã que trabalha no enfrentamento da pobreza e da exclusão social, priorizando em seus programas crianças e adolescentes de comunidade pobres e em situação de vulnerabilidade. Entre 2002 e 2007, fez parte do Conselho de Segurança Alimentar da Presidência da Republica, com atuação reconhecida pelos outros conselheiros por estar sempre atento aos problemas e a situação do país.

Ariovaldo também foi secretário geral e depois presidente da AEVB – Associação Evangélica Brasileira.
Recentemente foi convocado pela FAO – Fundo de Segurança para Alimentação e Agricultura das Nações Unidas – para trigésima conferencia para adequação de políticas públicas para o direito humano a alimentação adequada, em Roma. Este convite veio porque ele liderou um grupo desse tema no Conselho de Segurança Alimentar da presidencia da República, e o mesmo foi considerado pela ONU um dos 5 projetos mais efetivos para os objetivos do milenio estabelecidos por essa entidade.

Ariovaldo é pai de duas jovens, Myrna e Rachel, diretor da FLAM – Faculdade Latino Americana de Teologia Integral e autor de 5 livros e de diversos artigos publicados em revistas eletrônicas e livros impressos e eletrônicos.

14/09/11

Carta Mensal de Setembro



Relevância.

O Novo Testamento começa com Deus fora do Templo, e termina com Jesus fora da Igreja.

João Batista começa o seu ministério anunciando que era a voz daquele que clamava do deserto. E quem clamava do deserto era Deus.

Jesus, em sua última carta, está à porta da igreja em Laodicéia, na expectativa de alguém o ouça e lhe abra a porta de sua casa.

Isto significa que, desde o início, estamos a lutar pela Igreja.

É assim que vejo a Aliança, como um esforço para que o Cristo não perca a esperança para com a Igreja que está no Brasil, como parece ter perdido com a que estava em Laodicéia.

O apóstolo Paulo disse que sofria o que restava dos sofrimentos de Cristo pela Igreja. Não se referia a qualquer participação no sacrifício vicário, mas, certamente, a essa postura desobediente que se manifestou em Laodicéia e na história da Igreja, de modo geral.

Teimosamente, insistimos na ruptura, na divisão, no cisma.

A Igreja dos laodicenses estava encantada com o poder econômico, interpretando-o como benesse divina, enquanto o Senhor denunciava o seu isolamento.

A cada geração, parece que nos encantamos com algo, que acaba por nos apartar do Cristo, julgando estar sob suas bençãos.

Então, os bispos da Igreja precisam encontrar-se, sistematicamente, estar em permanente concílio, para não ser traído ou atraído pelo espírito de cada época, que é sempre espírito de rebelião.

Manter um estado permanente de concílio, entre iguais, mantém-nos atentos a nós mesmos, e mais, ao movimento da sociedade e de seu inspirador. A luta por manter a catolicidade, a santidade, a unidade e indivisibilidade da Igreja é hercúlea e necessária.

Não podemos cair no equívoco da Igreja que estava em Corinto, que segundo Paulo, havia partido o Corpo do Cristo, ou, ao menos, agido como se isso fosse possível.

Alguém já disse que a “praia” protestante não é a unidade, mas a verdade. Acho que foi assim, durante séculos, mas, houve e há a era moderna das perseguições aos cristãos, levada a cabo por ideologias e por religiões com vocação hegemônica, e, mais recentemente, pelo secularismo; e a questão já não é se o sujeito assina embaixo de todas as minhas convicções, mas se ele vai morrer comigo por Cristo. E se ele vai morrer comigo, comigo poderia viver, ainda que estivéssemos sempre nos amolando, como o ferro afia o ferro.

A questão que afasta Jesus de Laodicéia é uma crise de valores, de perda de identidade; não há menção de desvio confessional, há uma crise de coerência. É, guardadas as devidas proporções, o que vemos no Brasil, provavelmente, a maioria dos protestantes e evangélicos subscrevem confissões de fé muito semelhantes, mas, vivemos em meio a uma crise de identidade, quanto aos valores que devemos sustentar nesse momento da história. E como os devemos sustentar.

Não entendo a Aliança como uma questão de mera representatividade frente ao Estado, mas, como uma aglutinadora da Igreja frente ao novo Estado que se anuncia no País, marcado pelo crescimento econômico, pelo estertor da luta ideológica, pela necessidade de parecer moderno, pela tentativa de deixar de ser uma sociedade que, principalmente, luta por sua sobrevivência, para tornar-se uma sociedade global, moderna, capaz de reinventar costumes, e propor caminhos, mesmo tendo de conviver com o analfabetismo funcional, e com o remanescente da cosmovisão feudal, quando não, medieval.

A Igreja que está Brasil tem uma tarefa nova: por estar crescendo a olhos vistos, se torna a nova fonte de insumos para a construção da ética da nova Nação, que se avizinha, fruto de sua inserção nessa transformação global, que ameaça redefinir a ordem do poder econômico e político, no mundo.

Como reduzir nosso papel, a de mero espectador, se, gostando ou não, somos agentes na sociedade, como sal e como luz, com a demanda de construir uma cidade sobre uma montanha, de forma a ser vista por todos em todos os cantos?

Jesus está do lado de fora de Laodicéia, tentando chamar a atenção da Igreja. O que há do lado de fora da Igreja? Que lugar ele encontrou? E de onde chama a Igreja? Ele chama o que o ouvir a se assentar com ele no seu trono. Se ele não está reinando da Igreja? De onde o estará? Quem é idôneo para responder tais questões? Acho que o grande desafio de uma Aliança é esse, o de perceber o movimento de Jesus na história, para que a Igreja continue sua relevância na sinalização da presença do Reino entre e em nós.

por Ariovaldo Ramos

Fonte:Aliança Cristã Evangélica

http://www.aliancaevangelica.org.br/carta-mensal-de-setembro/

05/08/11

Entrevista de Luiz Felipe Pondé à Veja

Entrevista de Luiz Felipe Pondé à Veja

Luiz Felipe Pondé (foto), 52, é um raro exemplo de filósofo brasileiro que consegue conversar com o mundo para além dos muros da academia. Seja na sua coluna semanal na Folha de S.Paulo, seja em livros como o recém-lançado O Catolicismo Hoje (Benvirá), ele sabe se comunicar como o grande público sem baratear suas ideias. Mais rara ainda é sua disposição para criticar certezas e lugares-comuns bem estabelecidos entre seus pares. Pondé é um crítico da dominância burra que a esquerda assumiu sobre a cultura brasileira. Professor da Faap e da PUC, em São Paulo, Pondé, em seus ensaios, conseguiu definir ironicamente o espírito dos tempos descrevendo um cenário comum na classe média intelectualizada: o jantar inteligente, no qual os comensais, entre uma e outra taça de vinho chileno, se cumprimentam mutuamente por sua “consciência social”. Diz Pondé: “Sou filósofo casado com psicanalista. Somos convidados para muitos jantares assim. Há até jantares inteligentes para falar mal de jantares inteligentes. Estudioso de teologia, Pondé considera o ateísmo filosoficamente raso, mas não é seguidor de nenhuma religião em particular. Eis um pensador capaz de surpreender quem valoriza o rigor na troca de ideias.

Em seus ensaios, o senhor delineou um cenário exemplar do mundo atual: o jantar inteligente. O que vem a ser isso?
É uma reunião na qual há uma adesão geral a pacotes de ideias e comportamentos. Pode ser visto como a versão contemporânea das festas luteranas nas Dinamarca do Século 19, que o filósofo Soren Kierkegaard criticava por sua hipocrisia. Esse vício migor de um cenário no qual o cristianismo era base da hipocrisia para uma falsa espiritualidade de esquerda. Como a esquerda não tem a tensão do pecado, ela é pior do que o cristianismo.

Como assim?
A esquerda é menos completa como ferramenta cultural para produzir uma visão de si mesma. A espiritualidade de esquerda é rasa. Aloca toda a responsabilidade do mal fora de você: o mal está na classe social, no capital, no estado, na elite. Isso infantiliza o ser humano. Ninguém sai de um jantar inteligente para se olhar no espelho e ver um demônio. Não: todos se veem como heróis que estão salvando o mundo por andar de bicicleta.

Quais são os temas mais comuns da conversa em um jantar desses?
Filhos são um tema recorrente. Todos falam de como seus filhos são diferentes dos outros porque frequentam uma escola que cobra R$ 2.000 por mês, mas é de esquerda e estuda a sério o inviável modelo econômico cubano. Ou dizem que a filha já tem consciência ambiental e trabalha e uma ong que ajuda as crianças da África. Também se fala sempre de algum filme chatíssimo de que todos fingem ter gostado para mostrar como têm repertório. Mais timidamente, há certa preocupação com a saúde e o corpo. Reciclar lixo, e mais recentemente, andar de bicicleta também são temas valorizados. Sempre se fala mal dos Estados Unidos, mas Barack Obama é um deus. Fala-se mal de Israel, sem conhecer patativa da história do conflito israelo-palestino. Mas, claro, é obrigatório enfatizar que você é antissionista, mas não antissemita, pois em jantar inteligente muito provavelmente haverá um judeu – apesar de serem muitas vezes judeus em crise consigo mesmos, o que é bem típico dos judeus.

Que assuntos são tabus?
Imagine dizer em uma reunião na Dinamarca luterana de Kierkegaard que algumas mulheres são infelizes porque não chegam ao orgasmo. Seria um escândalo. Simetricamente, hoje é um escândalo dizer que as mulheres emancipadas e donas de seu nariz estão mesmo é loucas de solidão. No jantar inteligente, você tem sempre de dizer que a emancipação feminina criou problemas para as mulheres, que os homens aprenderam a ser sensíveis e que uma mulher nunca vai dar um pé no homem que se mostre sensível demais. Os jantares inteligentes misturam cardápios interessantes — pratos peruanos ou, sei lá, vietnamitas – como papo-cabeça, mas servem à mesma função que os jantares dos pais dessas pessoas cumpriam: passar o tempo. Os problemas amorosos, sexuais e profissionais são os mesmos, mas todos se acham bem resolvidos. Costumo provocar dizendo que há 100 anos se fazia sexo melhor. Tinha mais culpa e pecado, o que deve ser uma excitação tremenda. Hoje, todos mundo diz que tem um desempenho maravilhoso, e que vive uma relação de troca plena com o seu parceiro ou parceira. Eu considero a revolução sexual um dos maiores engodos da história recente. Criou uma dimensão de indústria, no sentido da quantidade, das relações sexuais – mas na maioria elas são muito ruins, porque as pessoas são complicadas.

Quando começaram os jantares inteligentes?
A matriz histórica são os filósofos da França pré-revolucionária. Os saraus, os jantares em casa de condessas e marquesas eram então uma atividade da burguesia, ou de uma aristocracia falida, aburguesada. Eram uma das formas que a burguesia usava para constituir sua identidade, para mostrar que tinha cultura e opiniões. Mas era um grupo de vanguarda, que discutia a fratura e crises do pensamento. Nos jantares de hoje, a inteligência tem a mesma função do vinho chileno.

Não há lugar para um pensamento alternativo nem na hora da sobremesa?
Não. A gente anos de ditadura no Brasil. Mas, quando ela acabou, a esquerda estava em sua plenitude. Tomou conta das universidades, dos institutos culturais, das redações de jornal. Você pode ver nas universidades, por exemplo, cartazes de um ciclo de palestras sobre o pensamento de Trotsky e sua atualidade, mas não se veem cartazes anunciando conferência sobre a crítica à Revolução Francesa de Edmund Burke, filósofo irlandês fundamental para entender as origens do conservadorismo. Não há um pensamento alternativo à tradição de Rousseau, de Hegel e de Marx. Tenho um amigo que é dono de uma grande indústria e cuja filha estuda em um colégio de São Paulo que nem é desses chiques de esquerda. É uma escola bastante tradicional. Um dia, uma professora falava da Revolução Cubana, como se esse fosse um grande tema. Ela citou Che Guevara, e a menina perguntou: “Ele não matou muita gente?” A professora se vira para a menina e responde: “O seu pai também mata muita gente de fome”. O que autorizou uma professora usar esse tipo de argumento é o status quo que se instalou também nas escolas, e não só na universidade. O infantilismo político dá vazão e legitima esse tipo de julgamento moral sumário.

Como essa tendência se manifesta na universidade?
O mundo das ciências humanos, em que há pouco dinheiro e se faz pouca coisa, é dominado pela esquerda aguada. Há muitos corporativismo e a tendência geral de excluir, por manobras institucionais, aqueles que não se identificam com a esquerda. Existe ainda a nova esquerda, para a qual não é mais o proletariado que carrega o sentido da história, como queria Marx. Os novos esquerdistas acreditam que esse papel hoje cabe às mulheres oprimidas, aos índios, aos aborígenes, aos imigrantes ilegais. Esses segmentos formariam a nova classe sobre a qual estaria depositada a graça redentora. Eu detesto política como redenção.

Por que a política não pode ser redentora?
O cristianismo, que é uma religião hegemônica no Ocidente, fala do pecador, de sua busca e de seu conflito interior. É uma espiritualidade riquíssima, pouco conhecida por causa do estrago feito pelo secularismo extremado. Al lado de sua vocação repressora institucional, o cristianismo reconhece que o homem é fraco, é frágil. As redenções políticas não têm isso. Esse é um aspecto do pensamento de esquerda que eu acho brega. Essa visão do homem se responsabilidade moral. O mal está sempre na classe social, na relação econômica, na opressão do poder. Na visão medieval, é a graça de Deus que redime o mundo. É um conceito complexo e fugidio. Não se sabe se alguém é capaz de ganhar a graça por seus próprios méritos, ou se é Deus na sua perfeição que concede a graça. Em qualquer hipótese, a graça não depende de um movimento positivo de um grupo. Na redenção política, é sempre o coletivo, o grupo, que assume o papel de redentor. O grupo, como a história do século 20 nos mostrou, é sempre opressivo.

Em que o cristianismo é superior ao pensamento de esquerda?
Pegue a ideia de santidade. Ninguém, em nenhuma teologia da tradição cristã – nem da judaica ou islâmica –, pode dizer-se santo. Nunca. Isso na verdade vem desde Aristóteles: ninguém pode enunciar a própria virtude. A virtude de um homem é anunciada pelos outros homens. Na tradição católica – o protestantismo não tem santos –, o santo é sempre alguém que, o tempo todo, reconhece o mal em si mesmo. O clero da esquerda, ao contrário, é movido por um sentimento de pureza. Considera sempre o outro como o porco capitalista, o burguês. Ele próprio não. Ele está salvo, porque reclica lixo, porque vota no PT, ou em algum partido que se acha mais puro ainda, como o PSOL, até porque o PT já está meio melado. Não há contradição interior na moral esquerdista. As pessoas se autointitulam santas e ficam indignadas com o mal do outro.

Quando o cristianismo cruza o pensamento de esquerda, como no caso da Teologia da Libertação, a humildade se perde?
Sim. Eu vejo isso empiricamente em colegas da Teologia da Libertação. Eles se acham puros. Tecnicamente, a Teologia da Libertação é, por um lado, uma fiel herdeira da tradição cristã. Ela vem da crítica social que está nos profetas de Israel, no Antigo Testamento. Esses profetas falam mal do rei, mas em idealizar o povo. O cristianismo é descendente principalmente desse viés do judaísmo. Também o cristianismo nasceu questionando a estrutura social. Até aqui, isso não me parece um erro teológico. Só que a Teologia da Libertação toma como ferramenta o marxismo, e isso sim é um erro. Um cristão que recorre a Marx, ou a Nietzsche – a quem admiro –, é como uma criança que entra na jaula do leão e faz bilu-bilu na cara dele. É natural que a Teologia da Libertação, no Brasil, tenha evoluído para Leonardo Boff, que já não tem nada de cristão. Boff evoluiu para um certo paganismo Nova Era – e já nem é marxista tampouco. A Teologia da Libertação é ruim de marketing. É como já se disse: enquanto a Teologia da Libertação fez a opção pelo pobre, o pobre fez a opção pelo pentecostalismo.

O senhor acredita em Deus?
Sim. Mas já fui ateu por muito tempo. Quando digo que acredito em Deus, é porque acho essa uma das hipóteses mais elegantes em relação, por exemplo, à origem do universo. Não é que eu rejeite o acaso ou a violência implícitos no darwinismo – pelo contrário. Mas considero que o conceito de Deus na tradição ocidental é, em termos filosóficos, muito sofisticado. Lembro-me sempre de algo que o escritor inglês Chesterton dizia: não há problema em não acreditar em Deus; o problema é que quem deixa de acreditar em Deus começa a acreditar em qualquer outra bobagem, seja na história, na ciência ou sem si mesmo, que é a coisa mais brega de todas. Só alguém muito alienado pode acreditar em si mesmo. Minha posição teológica não é óbvia e confunde muito as pessoas. Opero no debate público assumindo os riscos do niilista. Quase nunca lanço a hipótese de Deus no debate moral, filosófico ou político. Do ponto de vista político, a importância que vejo na religião é outra. Para mim, ela é uma fonte de hábitos morais, e historicamente oferece resistência à tendência do Estado moderno de querer fazer a cura das almas, como se dizia na Idade Média – querer se meter na vida moral das pessoas.

Por que o senhor deixou de ser ateu?
Comecei a achar o ateísmo aborrecido, do ponto de vista filosófico. A hipótese de Deus bíblico, na qual estamos ligados a um enredo e um drama morais muito maiores do que o átomo, me atraiu. Sou basicamente pessimista, cético, descrente, quase na fronteira da melancolia. Mas tenho sorte sem merecê-la. Percebo uma certa beleza, uma certa misericórdia no mundo, que não consigo deduzir a partir dos seres humanos, tampouco de mim mesmo. Tenho a clara sensação de que às vezes acontecem milagres. Só encontro isso na tradição teológica

Fonte: Dokimos

http://www.blogdokimos.com